Sites Grátis no Comunidades.net
Crie seu próprio Site Grátis! Templates em HTML5 e Flash, Galerias em 2D e 3D, Widgets, Publicação do Site e muito mais!
Menu
 
PATRIMONIO CULTURAL IMATERIAL, MATERIAL, HERITAGE
Patrimônio Cultural Imaterial

 

Patrimônio Cultural Imaterial; os lugares (Ensaio)

Marcello Polinari, Curitiba, 2008

RESUMO

Quase todo patrimônio cultural é composto pela cultura imaterial da qual uma parcela ínfima se materializa em objetos tangíveis. A gestão do patrimônio imaterial depende da facilitação da continuidade do modo de vida das culturas que tornam vivo este patrimônio imaterial.

SUMMARY

Almost all cultural heritage is mainly expressed by its intangible manifestation. Only a small part of it materializes as a tangible object. And the management of this intangible heritage depends, above all, how the way of life of the peaple and human cultures, which

maintain alive this knowledge.

Antes é necessário explicar como algumas coisas e conceitos são entendidos: 1 – Patrimônio; 2 – Cultura; 3 - Cultura Material, 4 - Cultura Imaterial.

Patrimônio histórico: é produto de historiadores que coincidentemente, porque eles tem formação para a critica e autocrítica , elegem discursos para serem sacralizados como coisas que são bens comunais. O historiador que instrui um processo de tombamento age tal qual outro que narra este ou aquele episódio histórico, deixando de narrar outros e outras versões e abordagens possíveis. Assim, teses que comprovam a tendenciosidade do patrimônio são anacrônicas. O historiador que escreve um texto produz um amalgama social, tanto quanto aquele que instrui um processo de tombamento, que manipula iluminara um objeto como monumento (algo memorável para todos) e assim agrega socialmente populações entorno deste monumento. Nem todo monumento é produto imediato de intelectuais, alguns processos de tombamento tem origem popular por serem coisas adequadas ao modo de sentir do povo e seu estar no mundo. O patrimônio é o conjunto de coisas –tangíveis e intangíveis- que os intelectuais propõe/oferecem ao povo como sendo seus bens, suas ligações comuns, o povo adota como sendo suas e estas coisas assim sacramentadas interferem nas relações sociais, econômicas, intelectuais/mentalidade/imaginário.... Elas ao intervirem nas interações humanas adquirem o caráter de ente ou fenomeno histórico.

Cultura : A cultura é composta pelo conjunto de conhecimentos compartilhados pelos indivíduos de uma população, pelo comportamento comum e aceito e por um sistema de valores acordados pelos indivíduos desta população do grupo. É também o conjunto de objetos e fenômenos materiais e imateriais produzidos por uma população, são os modos de sentir e pensar predominantes, é o modo predominante de uma população produzir e reproduzir o viver material, é também o conjunto das coisas que agregam esta população.

A cultura, ao ser vivida, ao manifestar-se como fenômeno social, tanto produz o pão e o carro quanto um consenso de ética, de beleza, um prato típico ou poesia. A cultura predominante fornece um senso de norte, de direção para uma população. Ela é um produto social complexo que ordena o fazer, o pensar e o sentir de um povo. O agir e pensar não predominante também fazem parte da cultura desde que não sejam patogênicos.

Cultura material: é todo resultado/produto palpável/tangível do complexo de interações humanas como uma colheita, um relógio, uma edificação, um livro. São coisas que a mão humana, sem próteses ou outras atividades pode tocar diretamente, ela pode guardar, salvaguardar do tempo, pode até restaurar.

Cultura imaterial: são os produtos das interações humanas que não se pode tocar/intangíveis, normalmente não se pode guardar na integra e certamente não se pode restaurar. A cultura imaterial é um fenômeno (ocorrência) que pouco resíduo tangível deixa e é percebida enquanto dura a interação humana que a manifesta. Assim é a música que é mais que o som e é sensível enquanto é representada, o mesmo com a dança, a poesia, os medos de mitos, o sentimento de pátria e patriotismo, um senso ético, a preferencia social pelo milho ou pela aveia, o conhecimento tradicional, as crenças religiosas herdadas, a língua ao ser falada/utilizada. Estes objetos de cultura imaterial não tem existência própria pois são frutos, se manifestam nas interações humanas, elas lhes conferem existência, o cantar confere existência ao canto, o dançar à dança, o cozinhar à receita. É no complexo das ações humanas sendo vivenciadas que a cultura imaterial vem ao mundo, manifesta-se e possibilita que a conheçamos.

A questão central deste texto é propor uma espécie de média ponderada. Pensemos e percebamos o quanto dos atos e interações humanas em nosso cotidiano resultam em produtos tangíveis e duradouros por eles mesmos e quantos resultam em alguns momentos de manifestação através de alguma ação ou interação humana. Claramente a maioria das ações e interações humanas não resultam num muro, numa mesa, num objeto tangível com existência independente daquele que o produziu. Finda a ação, a interação, a maioria dos produtos humanos se esvai como bolhas de sabão como uma música que deixa de ser cantada. A cultura imaterial é viva e interligada com a cultura material de um povo. Os objetos da cultura imaterial são como um balão furado que necessita sempre da interação de alguém (inflando-o) para continuar a ser balão e não voltar a ser um pano murcho. O conhecimento tradicional e os valores éticos compõe o cerne da cultura imaterial que nos humanizam e nos permitem criar e recriar a nós e aos ambientes.

Assim sendo, o que chamamos de cultura imaterial deve abranger mais de 90% da cultura humana, dos produtos das interações humanas. Vivendo em sociedade estamos produzindo e reproduzindo ética, linguagem, estética, poesia, música, consensos socialmente predominantes e minorias, (...) um infindo universo de coisas que podemos perceber enquanto estivermos interagindo, mas que, finda a interação são apenas memórias, pouco ou nada de tátil e realmente representativo do objeto de patrimônio resta.

Isto interfere no patrimônio histórico/cultural ao chamar a atenção para o que foi eleito para ser consagrado como patrimônio (pertence comum) até hoje. É fácil perceber que o conjunto do patrimônio protegido é constituído principalmente de edificações e de coisas que podem ser guardadas e assim protegidas e restauradas. A recente atenção dispensada ao patrimônio imaterial requer uma maior participação do historiador das mentalidades, do antropólogo, do cientista da ética, dos poetas, literatos e dos artistas. Estes cuidarão como puderem da maior percentagem das coisas que compõe o patrimônio cultural e que estava relegado a um segundo plano, ou plano algum.

Cuidado com as confusões, o modismo do patrimônio imaterial pode fazer com que se classifique registros e resquícios materiais da história, fontes para a história, sítios históricos como patrimônio imaterial ou lugares do patrimônio imaterial, o que é um erro. Patrimônio histórico é passado, patrimônio imaterial é gerúndio. O que tradicionalmente foi classificado como patrimônio histórico ou seja coisas materiais ligadas ao passado, fontes de pesquisa e informação sobre a vida em sociedade no tempo (=história), podem ser confundidas como sendo lugares do patrimônio imaterial, ou seja os lugares onde as interações sociais vivificam no presente o patrimônio imaterial. A diferença parece sutil mas ao patrimônio imaterial cabe mais a tradição vivificada em cada interação em dados locais, é coisa que tem mais cara de antropologia que de história. Já o patrimônio histórico predomina a base material de registros e resquícios de interações humanas e evoca não a vivificação presente de tradições, mas mais a memória histórica de um passado. Os lugares que apenas evocam memória são patrimônio histórico e registro material, os lugares onde as interações vivificam a cada interação no presente velhas tradições (folguedos, festas, culinária, valores, padrões interativos, ética, saberes) são patrimônio imaterial e tem mais cara de objeto de antropólogo, embora sejam adequados a história antropológica.

Um objeto com suas especificidades.

O patrimônio imaterial, e a cultura imaterial da qual ele deriva, são objetos com especificidades. Como ele, patrimônio imaterial só se manifesta nas interações humanas, não da para colocar uma redoma sobre ele como se pode fazer com um objeto de museu, não da para protege-lo de intempéries e principalmente, não dá para restaurá-lo. Este ultimo dado é importante porque, por exemplo, se se parar a cantar um conjunto de canções de um grupo e, décadas mais tarde em outro contexto se incentivar a que outro grupo volte a cantar, já não é mais a mesma coisa, tem outro significado para outro povo. Não há verdadeira "revitalização" no sentido de restauro de uma tradição ou outro patrimônio imaterial. A vivificação do patrimônio imaterial depende de quem o vivifica. Assim, muitas tradições só podem ser autênticas pelas mãos, cabeças, bocas, gestos e trabalho daqueles a quem elas realmente pertencem. Por exemplo: quando se comete um etnocidio com uma população indígena e ela perde seus costumes, não é que necessariamente ela deixe de ser indigena, e depois se tente fazer com que volte a se vestir ou despir, cantar, educar os jovens, comer e produzir alimentos como antes, isto não os fará retornar ao "jardim do éden", eles terão que viver seu hoje a partir de hoje e ser o que são. A melhor gestão do patrimônio imaterial de uma população fora das instituições de preservação (museus, casas da memória, museus de imagem e som, instituições de patrimônio) ocorre com o incentivo a sobrevivência material do grupo que produz e reproduz aquele aspecto da sua cultura imaterial, isso porque o imaterial norteia as interações materiais e, quase sempre, delas depende.

Assim, a gestão do patrimônio imaterial em muito depende de facilitar a continuidade das interações materiais, a sobrevivência material daqueles que o vivificam. De resto cabem os registros guardados em instituições adequadas, mas estes registros, comparados com o patrimônio imaterial vivo, parecem pobres peças de paleontologia.

Cuidado com panacéias.

São temerárias as panacéias como a plantação de ervas medicinais, a criação de animais selvagens, o artesanato e o turismo como apontadas soluções gerais para subsistência das populações de subsistência e suas tradições. Quanto ao turismo cultural há que se questionar o quanto ele colabora para a manutenção das tradições materiais e imateriais em cada caso específico. O mesmo deve-se avaliar quanto a alteração dos regimes agrícolas e coletores ao implantar uma panacéia culturalmente alienígena.

Bibliografia básica

BERGER, Peter, & LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade. Tratado de sociologia do conhecimento. Rio de Janeiro Vozes, 1995.

GRAMSCI, Antônio Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1989.

Dados do autor em 2008

Doutor em meio ambiente e desenvolvimento UFPR 1999; Especialista em historia do pensamento contemporâneo, PUCPR 1986; Mestre em história social, UFPR 1989; pesquisador de história do Patrimônio Cultural do Paraná desde 1982 instruindo processos de tombamento.

 

Criar um Site Grátis    |    Crear una Página Web Gratis   |   Create a Free Website Denunciar  |  Publicidade  |  Sites Grátis no Comunidades.net